Mesa de Bar

Lugar pra se falar sobre tudo e sobre o nada.

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Local: Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

Sóbria, a maior parte do tempo. Na mesa de um bar me torno mais corajosa, mais sensível, mais emotiva, mais generosa. No bar e com umas cervejas a mais, as dúvidas se dissipam, as certezas afloram, as tristezas caem fora e a alegria reina. Sim, na mesa de um bar eu sou uma pessoa melhor do que fora dela.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Dia 06: Um livro do meu autor favorito

Tão difícil quanto escolher um livro favorito é escolher um autor. Não tenho um autor, e sim vários que vão se sucedendo em ordem de importância de acordo com o momento, o humor, a memória e o clima. Mas Jorge Luís Borges sempre está na lista, independente de qualquer fator.

Não vou citar os já tão celebrados O Aleph, Ficções ou O Livro de Areia. Vou apenas chamar a atenção para a delícia que é ler Borges comentando sobre outros livros e autores que o agradaram, como no excelente "Prólogos, com um Prólogo de Prólogos".


O livro é uma coletânea de prólogos que Borges escreveu ao longo de sua extensa vida a convite de várias editoras argentinas para abrilhantar cada lançamento, ou nova edição, de um livro julgado importante. Jogada de marketing, sem dúvida. Mas não pode haver melhor propaganda do que chamar o maior escritor do país (e do mundo, para muitos) para escrever sobre o livro que se quer vender.

Os prólogos de Borges são muito mais do que simples apresentações do texto a ser lido. São pequenos ensaios críticos, reflexões sobre o autor, a obra, a época, o contexto histórico, etc. E são maravilhosamente bem escritos, como sói acontecer com tudo o que ele escreveu.

Impressiona, como sempre, a incrível erudição enciclopédica e o seu ecletismo literário. Borges não se recusa a nada e é capaz de encontrar e fruir qualquer coisa de bom que alguém haja escrito, mesmo que um único verso num livro inteiro de poesia canhestra. Dos poetas gauchescos, a Cervantes, Allan Poe, Lewis Carroll, Gibbon, Kafka, nada escapa.

Eu, que adoro falar de livros, acho irresistível a sua prosa e fico mortinha de vontade de ler tudo o que ele leu. Aqui vai um gostinho, tirado do prólogo do Prólogos, com um Prólogo de Prólogos. (que coisa mais borgiana!)

"Que eu saiba, ninguém formulou até agora uma teoria do prólogo. A omissão não nos deve afligir, já que todos sabemos do que se trata. O prólogo, na triste maioria dos casos, confina com a oratória de sobremesa ou com os panegíricos fúnebres e é pródigo em hipérboles irresponsáveis, que a leitura incrédula aceita como convenções do gênero. Há outros exemplos — recordemos o memorável estudo que Wordsworth prefixou à segunda edição de suas Lyrical Ballads — que enunciam e defendem uma estética. O prefácio comovido e lacônico dos ensaios de Montaigne não é a página menos admirável de seu livro admirável. O de muitas obras que o tempo não quis esquecer é parte inseparável do texto. Em As mil e uma noites — ou, como quer Burton, em O livro das mil noites e uma noite —, a fábula inicial do rei que faz decapitar sua rainha toda manhã não é menos prodigiosa que as seguintes; o desfile dos peregrinos que irão narrar, em sua cavalgada piedosa, os heterogêneos Contos de Canterbury foi considerado por muitos o relato mais vívido do volume. Nos palcos elisabetanos, o prólogo era o ator que proclamava o tema do drama. Não sei se é lícito mencionar as invocações rituais da epopeia: o Arma virumque cano, que Camões repetiu com tanta felicidade:

As Armas e os Barões assinalados...

O prólogo, quando os astros são favoráveis, não é uma forma subalterna do brinde; é uma espécie lateral da crítica. Não sei que julgamento favorável ou adverso merecerão os meus, que abarcam tantas opiniões e tantos anos.
A revisão destas páginas esquecidas sugeriu-me o plano
de outro livro, mais original e melhor, que ofereço aos que
desejarem executá-lo. Penso que exige mãos mais destras e
uma tenacidade que já me abandonou. Carlyle, pelos anos
de mil oitocentos e trinta e tantos, simulou, em seu Sartor
Resartus, que certo professor alemão tinha dado à estampa
um douto volume sobre a filosofia da roupa, e traduziu-o
parcialmente e o comentou, não sem algum reparo. O
livro que estou entrevendo é de índole análoga. Constaria
de uma série de prólogos de livros que não existem. Seria
pródigo em citações exemplares dessas obras possíveis. Há
argumentos que se prestam menos à escrita laboriosa que
aos ócios da imaginação ou ao indulgente diálogo; tais argumentos seriam a impalpável substância dessas páginas,
que não serão escritas. Prologaríamos, talvez, um Quixote
ou Quijano que nunca sabe se é um pobre sujeito que sonha ser um paladino cercado de feiticeiros ou um paladino
cercado de feiticeiros que sonha ser um pobre sujeito. Seria
conveniente, por certo, eludir a paródia e a sátira; as tramas
deveriam ser daquelas que nossa mente aceita e almeja."

1 Comments:

Blogger Tina Lopes said...

Ai, que vergonha, nunca li Borges, eu sei, mereço uma surra.

10/28/2011 4:13 PM  

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