Mesa de Bar

Lugar pra se falar sobre tudo e sobre o nada.

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Local: Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

Sóbria, a maior parte do tempo. Na mesa de um bar me torno mais corajosa, mais sensível, mais emotiva, mais generosa. No bar e com umas cervejas a mais, as dúvidas se dissipam, as certezas afloram, as tristezas caem fora e a alegria reina. Sim, na mesa de um bar eu sou uma pessoa melhor do que fora dela.

segunda-feira, outubro 31, 2011

Dia 09: O livro mais triste que já li

Obviamente, não se pode repetir o mesmo livro neste meme, senão eu diria que o Rosinha, minha canoa continua sendo, na minha memória sentimental, o mais triste de todos. Crianças sofrendo me comovem profundamente, então também podemos citar aqui o Meu Pé de Laranja Lima, do mesmo autor, ou O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini, ou todos os do Charles Dickens.


Mas há um conto da Katherine Mansfield que vale a pena recomendar e que, embora não me tenha feito chorar, me encheu de uma tristeza duradoura e opressiva. A Casa de Bonecas é uma pequenina obra-prima, tão cheia de sarcasmo e ironia quanto de compaixão e ternura doídas. E, sim, há crianças sofrendo.




Os contos de K. Mansfield são quase sempre pequenos. Ela se detém em instantes mínimos e extremamente intensos. Ela expõe a maldade que pode haver em qualquer pessoa, sem poupar seus personagens nem seus leitores. Ela denuncia a amargura em quem se pretende feliz. Ela é capaz de nos deixar com a garganta travada em um belo dia de sol. Ela é terrível. E, por isso mesmo, muito boa escritora.



"Muitas meninas, incluindo as Burnells, não tinham permissão nem de conversar com elas. Passavam pelas Kelveys com o nariz empinado e, como eram elas que estabeleciam os parâmetros no que se referia a padrões de comportamento, as Kelveys eram repelidas por todo mundo. Até mesmo a professora se dirigia a elas com uma entonação especial e reservava um sorriso diferente para as outras meninas quando Lil Kelvey se aproximava de sua mesa com um ramalhete de flores de aparência lastimavelmente vulgar. Elas eram filhas de uma lavadeira muito enérgica e trabalhadora, que durante o dia ia de casa em casa. Só isso já era terrível. Mas onde estava o sr. Kelvey? Ninguém sabia com certeza. Mas todo mundo dizia que estava preso. Assim, elas eram filhas de uma lavadeira e de um presidiário. Que bela companhia para as outras meninas! Sem falar na aparência.


...


Mas qualquer coisa que a nossa Else vestisse ficaria estranho. Era uma pequerrucha com o cabelo cortado rente, de olhos enormes e solenes – uma corujinha branca. Ninguém nunca a tinha visto sorrir; ela quase nunca falava. Vivia agarrada em Lil, segurando firme na barra da saia da irmã. Onde Lil ia, Else ia atrás. No recreio, na estrada que ia e vinha da escola, Lil ia na frente e Else vinha atrás, grudada nela. Somente quando queria algo ou quando perdia o fôlego, a nossa Else dava um puxão e Lil parava e se virava. As meninas Kelvey sempre se entendiam."

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