Mesa de Bar

Lugar pra se falar sobre tudo e sobre o nada.

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Local: Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

Sóbria, a maior parte do tempo. Na mesa de um bar me torno mais corajosa, mais sensível, mais emotiva, mais generosa. No bar e com umas cervejas a mais, as dúvidas se dissipam, as certezas afloram, as tristezas caem fora e a alegria reina. Sim, na mesa de um bar eu sou uma pessoa melhor do que fora dela.

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Dia 22: Livro preferido que li para a escola

Eu diria que Exodus do Leon Uris, do qual já falei neste meme, foi o melhor que li para a escola. Mas não quero me repetir, então deixa escolher outro:

O Grande Mentecapto, de Fernando Sabino; pau-a-pau com O Encontro Marcado, do mesmo autor. Ambos lidos para a escola.


É preciso dizer que Fernando Sabino era uma espécie de herói literário em Belo Horizonte nos anos 80 da minha adolescência, época em que o autor estava no auge. Ele tinha nascido nesta mesma roça iluminada, e tinha conquistado fama, respeito, consideração. Era lido no país todo e traduzido em muitas línguas. Ele era relativamente próximo a nós, todo mundo tinha algum amigo ou conhecido aparentado com ele. Eu tinha uma colega de sala que era sobrinha dele.

Era muito, muito simpático ler em seus livros descrições de lugares belorizontinos que nós conhecíamos e frequentávamos. E a leitura era leve, engraçada. Li muita coisa dele durante a adolescência e simplesmente adorava.

Quanto ao Viramundo, protagonista do livro, ficou marcado para mim como uma espécie de Macunaíma, de Dom Quixote, de Malasartes, de João Grilo e Chicó, de um anti-herói por quem não é possível deixar de ter respeito e simpatia embora quase nenhuma identificação. Vagabundo, andarilho, bom coração, cheio de malícia e esperteza. Personagem pra não se esquecer jamais. E se já não lembro dos detalhes das suas "aventuras e desventuras", me recordo perfeitamente bem da sensação de hilariedade misturada a melancolia que a história me provocava.


Ao dar entrada em sua nova residência, Geraldo Viramundo foi levado diretamente ao gabinete do diretor, um velhinho de cabeça branca e olhos azuis que atendia pelo nome de Dr. Pantaleão.
- Você o que é, meu filho? – perguntou o Dr. Pantaleão.
- Sou cristão pela graça de Deus – respondeu Viramundo.
- Isso! Assim é que serve. Esse pelo menos fala. Cada doido com sua mania. De médico e louco todos temos um pouco. Eu estou perguntando qual é a sua encarnação.
Antes que Viramundo pensasse em responder, Dr. Pantaleão disparava a falar , muito depressinha:
- Napoleão ainda temos uns três ou quatro. Já tivemos uma porção. Nunca tivemos é um papa, mas santos temos vários. Temos também um que é grão de milho, não pode ver uma galinha, foge correndo. E tem outro que é justamente galinha, vive a perseguir o pobre do grão de milho, cacarejando. Tem um que é cafeteira: passa o dia inteiro com um braço na cintura e outro para cima, mas não serve café a ninguém, acho que está vazia. Tem de tudo. Dom Pedro temos dois. Pedro Segundo, digo. Não sei por que, mas Pedro Primeiro nunca mais apareceu. O último que tivemos, já faz tempo, morreu de tanto grito do Ipiranga que ele dava, proclamando a independência. Independência ou morte! Independência ou morte! Independência ou morte! Ficava assim o tempo todo, montado numa vassoura. Você o que é?
- Eu sou mais eu – respondeu Viramundo prontamente.
- Não pode. Se você fosse mais você, não estaria aqui. Você é menos você, isso sim. E noves fora, zero. Se eu fosse você, seria alguém mais, não seria eu. Portanto você tem que ser alguém. Basta escolher. Só não escolha Tiradentes, que você pode se dar mal. Já tivemos um, e acabaram enforcando o coitado. Foi preciso que Caxias, o pacificador, viesse botar ordem nesta joça, que isto aqui estava uma verdadeira loucura. Se é que você me permite essa redundância, hi! hi! hi! Todo mundo aqui dentro tem de ser alguém ou alguma coisa. Você o que é?
Sem esperar resposta, o Dr. Pantaleão se aproximou dele e continuou a falar, baixando a voz e com um brilho de esperteza nos olhinhos:
- Vou lhe dar um conselho: seja coisa, não seja gente. Coisa é muito melhor. Uma coisa bem macia, bem leve, bem fofa... Uma nuvem, por exemplo. Eu vou lhe contar um segredo, peço que não conte para ninguém. Quando vim para cá, minha intenção era ser uma nuvem, mas não pude, porque tinha de andar pelado, o que era incompatível com a minha condição de diretor. E você já imaginou uma nuvem de calças? Hi! hi! hi!
- Vladimir Maiakovski – exclamou Viramundo solenemente.

2 Comments:

Blogger Rubão said...

Gosto daquele achado de Sabino: "Quando crescer, quero ser criança".

2/09/2012 9:36 PM  
Blogger Tina Lopes said...

Quando saí da sessão de Forrest Gump só pensava que o roteirista certamente tinha lido O Grande Mentecapto.

2/10/2012 8:57 AM  

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